O silêncio em uma sala onde cada um está imerso no seu próprio celular não é apenas uma falta de conversa; é uma interrupção em um processo vital. É extremamente desafiador equilibrar a rotina moderna e a presença digital, uma dinâmica que vivenciamos intensamente nas famílias atuais, tanto na prática clínica quanto dentro das nossas próprias casas. No entanto, o custo desse distanciamento recai diretamente sobre o desenvolvimento infantil.

Para compreender esse impacto, podemos olhar para a perspectiva da linguista brasileira Cláudia de Lemos. Segundo ela, a criança não aprende a falar de forma isolada, apenas por imitação ou por uma capacidade inata e solitária. A aquisição da linguagem é um processo essencialmente interacionista.

A criança é "capturada" pela língua através do Outro (os pais, a família, os cuidadores). Quando a criança balbucia ou tenta uma palavra e o adulto acolhe, interpreta e responde, ele está inserindo essa criança no funcionamento da linguagem. É o adulto que dá sentido à fala inicial da criança.

Onde as telas entram (e atrapalham) nessa história? Quando a nossa atenção — e a da criança — está sequestrada pelas telas, esse espelho linguístico se quebra. As telas oferecem estímulos passivos, mas não interagem, não fazem leitura facial e não devolvem a fala com o afeto necessário para que a criança se constitua como um sujeito falante. Faltam as pausas, as trocas de turno, as risadas compartilhadas e o olho no olho.

Como resgatar essa conexão no dia a dia?

  • Desconexão intencional: Estabeleça pequenos refúgios "livres de telas" na rotina, como durante as refeições ou no momento da leitura antes de dormir.

  • Contato visual genuíno: Quando a criança tentar se comunicar, abaixe o celular e olhe nos olhos. O olhar do adulto é o primeiro validador da tentativa de fala.

  • Aproveite as narrativas cotidianas: Troque o consumo passivo de vídeos por conversas reais. Narre o que estão fazendo enquanto brincam, cozinham ou organizam os brinquedos, construindo narrativas juntos.

A tecnologia tem o seu espaço, mas a verdadeira rede de conexão de uma criança é humana. A linguagem precisa de vida, de afeto e de escuta para florescer.


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